João Pereira: O General do Conforto (calma...conforto não é confortável)
Demorei muitos anos para acessar este hinário. Quando era para cantá-lo, eu ia, mas não o sentia, talvez porque ainda não fosse o momento desse encontro.
A primeira aproximação com ele foi em um Serviço de Finados, quando cantamos os quatro companheiros em sequência, e ele viria a ser o terceiro, após o intervalo e antes do hinário da Maria Marques.
Naquele dia, senti que ele tinha um poder diferente: mudava o ambiente, trazia leveza e elevação. Era também um momento de respiro depois de um Antônio Gomes e antes de uma Damião...
Mas, ainda assim, eu não tinha me conectado a ele. De todos os companheiros, era por ele que eu não nutria nenhum afeto.
Anos vão... vários trabalhos cantando ele... e nada!
Mas eu estava ali, com todo respeito, cantando com zelo, estudando com atenção.
Então, em um momento muito difícil da minha vida profissional, sem forças, sabendo que precisava me posicionar, tomar uma decisão, sair de um lugar que não tinha nada a ver comigo... sinto a presença de João Pereira.
Um dia, envolta em tristeza no trabalho, pensei: "deixa eu colocar aqui o Seis de Janeiro".
E dali em diante a minha relação com este hinário mudou. Quando o ouvia, eu me sentia com energia e alegria.
Demorou muito para que, depois de todos os desenrolares da vida profissional, eu pudesse fazer esse hinário dentro de um trabalho. Foram quase dois anos! Mas ele me sustentou durante todo o processo, junto com outro sobre o qual escrevo depois: o Eu Sou Feliz, de Tufi Rachid.
Chegou, então, o dia em que eu ia cantar João Pereira depois dessa aproximação. Lembro que comentei: "é um hinário leve, se comparado aos de outros companheiros". (Eu não sabia o que dizia, estava delirando! Ora, ainda que cada hinário tenha sua força, cada pessoa tem seu momento e cada trabalho, seu contexto...)
O Mestre Irineu chamava João Pereira de General do Conforto. E eu acho esse nome muito bonito porque, depois de algum tempo cantando seus hinos, comecei a perceber que esse conforto não tem nada de acomodação, nem mesmo de ser confortável. Naquele trabalho, era tão... Eu não tenho nem palavras para descrever a força de aterramento, a coragem, a constância, o olhar preciso e clínico de João Pereira. Entendi que seu hinário é um conforto que levanta, que dá coragem, que nos põe de pé.
João Pereira não parece dizer: "fique aí, que tudo vai passar". O que ele diz é: "Levante, fique firme, confie, faça o que tem que ser feito!"
Em Sou Filho do Onipotente, ele diz: "Eu piso firme e sigo em frente."
Pisar firme. Seguir em frente. Isso ressoava infinitamente em minha vida e reverberou depois daquele trabalho, que foi um divisor de águas em muitos hábitos.
Há momentos em que a gente não precisa de uma grande revelação. Precisa só conseguir colocar o próximo pé no chão. E era isso que ele me dizia mil vezes, sem cansar, durante o hinário: "pé no chão", "firma o pé", "olha o pé"...
Em Marachimbé, hino cuja melodia eu não aprecio tanto, eu entendia que ele falava de corpo, de compromisso com a própria palavra ("Você deve se lembrar / Deve pensar um pouco / Da firmeza que empregou / E na palavra que jurou"), daquilo que dissemos que iríamos fazer, de marcar o passo para seguir mantendo a firmeza.
Meu espírito estremecia. João Pereira não suavizava as palavras; tudo parecia uma ordem: "vai, continua, firma, anda, coragem, foco, disciplina, constância". E, nas palavras dele, entendi por que ele era um General – o General do Conforto –, termo/patente dado por Mestre Irineu a João Pereira.
Porque general também disciplina. E ainda há quem pense a disciplina como algo duro, autoritário, sem espaço para o amor. Mas talvez a disciplina seja aquilo que sustenta o que a gente diz querer. Então: se eu quero um caminho, preciso caminhar; se quero mudar, preciso fazer diferente; se quero sair de um lugar, preciso tomar alguma atitude...
Eu não conseguia cantar, apenas sentir a profundidade deste hinário cheio de chaves espirituais e esotéricas (nunca tinha percebido a força da Santíssima Trindade como neste hinário).
Sentia que seu hinário organizava, chamava para a posição, para a tomada de decisão, mostrava caminhos, movimentava e apontava como seguir. Não é um conforto de colo, como eu imaginava. É um conforto de "vamos por este caminho, você tem força, essa é a direção, seremos campeão".
E que chave mais interessante: um hinário chamado Seis de Janeiro, Dia de Reis, dos que seguiram a estrela-guia... ou seja, a direção.
Hoje tenho uma relação de muito (MUITO) respeito pelo trabalho de João Pereira, que me ensinou e sempre ensina sobre constância, coragem, firmeza para não se abandonar, confiança quando se anda com trabalho, reza e foco.
Foram uns quinze anos de caminhada no Daime para acessar esse hinário. Pra ver... esses hinários-base da doutrina guardam muitas chaves. Impossível olhar só a primeira camada das palavras.
Primeiro, senti a sua elevação, algo realmente espiritual; tinha certeza de que era a energia da Santíssima Trindade, da Sagrada Família, de quem ele fala em vários hinos: Maria, José e o menino Jesus, rainha, rei e príncipe... São realezas, uma família que acolhe, dá conforto, autoestima, segurança.
Depois, senti esse conforto do seu hinário... mas foi único encontrar o seu lado General. Ali se firmou pra mim a mensagem de João Pereira, e hoje, quando chamam pra cantá-lo, sou das primeiras a dizer: "Na hora!"
Cantar força e movimento, constância e disciplina: AMO!
Muita gratidão a este primor de hinário.
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