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Mostrando postagens de setembro, 2026

João Pereira: O General do Conforto (calma...conforto não é confortável)

Demorei muitos anos para acessar este hinário. Quando era para cantá-lo, eu ia, mas não o sentia, talvez porque ainda não fosse o momento desse encontro. A primeira aproximação com ele foi em um Serviço de Finados, quando cantamos os quatro companheiros em sequência, e ele viria a ser o terceiro, após o intervalo e antes do hinário da Maria Marques. Naquele dia, senti que ele tinha um poder diferente: mudava o ambiente, trazia leveza e elevação. Era também um momento de respiro depois de um Antônio Gomes e antes de uma Damião... Mas, ainda assim, eu não tinha me conectado a ele. De todos os companheiros, era por ele que eu não nutria nenhum afeto. Anos vão... vários trabalhos cantando ele... e nada! Mas eu estava ali, com todo respeito, cantando com zelo, estudando com atenção. Então, em um momento muito difícil da minha vida profissional, sem forças, sabendo que precisava me posicionar, tomar uma decisão, sair de um lugar que não tinha nada a ver comigo... sinto a presença de João Per...

Luz que não pisa no chão; Trabalho interior que não faz calo na mão

Tenho pensado em dois hinários que, para mim, parecem conversar com lugares muito diferentes dentro do Daime. De um lado, o Fluente Luz Universal , do Zé Ricardo. Do outro, o Caboclo Guerreiro , com hinos ofertados ao Vô Corrente. E não estou falando aqui de qual é melhor, mais verdadeiro ou mais "forte". Não é essa a questão. Cantar o Fluente Luz Universal , para mim, traz uma sensação de luz, de leveza, de beleza. Luz azul, prata, estrelas, paz, harmonia, universo. Há uma estética muito refinada, que conversa facilmente com determinados espaços urbanos, com pessoas que circulam por terapias, retiros, cursos, espiritualidades diversas. Mas fico pensando no que acontece quando essa linguagem se torna a forma mais confortável de falar do sagrado (e pode até esconder uma superioridade atrás de palavras como luz e harmonia). Paz, amor, união, consciência, somos todos um... (este último é o suprassumo da branquitude). Tudo isso cabe muito bem numa sala bonita, num centro urbano, ...

Maria Marques: Uma cabocla do sertão

O hinário O Mensageiro pra mim, é um hinário que me fala muito de força e coragem na vida.  Ânimo e disposição mesmo diante dos desafios que possamos ter.  Cantar Maria Marques é como estar no meio do sertão, ver uma casinha pequena, entrar e sentar pra tomar um café com uma mulher batalhadora, com 7 filhos pequenos, andando quilômetros com balde de água na cabeça para fazer um angu de sal, água e farinha pra essas crianças comerem. Ao sentar na mesa com ela, ouvir um pouco de como ela tem fé em Deus e na proteção de Nossa Senhora pra seguir com alegria.   Cada hino que canto é um ensino que me remete ao que ela viveu, são os ensinos que ela aprendeu na vida e tá ali me contando.  Pode ser que ela tenha uma linguagem dura, ou mesmo carregue um catolicismo popular ainda muito ligado a "dores" "pecados" e "sofrimentos" para poder chegar a luz. Mas é nessa história de luta que ela também me fala em alegria, firmeza, saúde, caminhos abertos ao novo. Sim… eu já...

Me perdoe os meus pecados

  Em nosso compêndio de hinários basilares da doutrina do Daime, muitas vezes cantamos palavras e símbolos oriundos de outros contextos históricos, culturais e religiosos. Há uma forte presença da linguagem católica popular, marcada por termos como “pecado”, “perdão”, “humildade”, “castigo”, “obedecer”, “doutrinar”, “apanhar para aprender”, entre outros. Mas antes de rejeitarmos essas expressões por parecerem antigas, duras ou associadas a uma visão de sofrimento, talvez seja necessário fazer um movimento mais profundo: compreender a origem e o sentido desses termos. Examinar. Refletir. Escutar o símbolo para além da leitura literal. A palavra “pecado”, por exemplo, vem do latim peccatum , ligada à ideia de “errar o alvo”, “desviar-se do caminho”. Dentro de uma leitura esotérica, pecado não precisa significar culpa moral eterna, mas afastamento da consciência, da verdade interior, da harmonia com o divino. Quando um hino diz “Do mundo do pecado / Eu rogo a Deus do céu / Que ele sej...

Depois do Hinário

  Este blog nasceu como uma guarda pessoal de reflexões e escritos que faço a partir da minha experiência com o Daime. Sou fardada e, em outro momento, posso contar um pouco mais sobre essa história. Por enquanto, isso não vem muito ao caso. Aqui ficam pensamentos, perguntas, inquietações e percepções — com licença poética e liberdade para pensar. O que escrevo não pretende ser doutrina, teologia, ensinamento ou norma sobre o Daime. Não são verdades universais, nem representam necessariamente uma visão coletiva. São pontos de vista: os meus, neste momento. E pontos de vista mudam. A experiência, os estudos, as pessoas, as histórias, os textos e a própria vida nos atravessam e nos fazem rever o que pensávamos saber. Afinal, a vida é dialética. Este é, portanto, um espaço para pensar o que fica depois do hinário .