Me perdoe os meus pecados

 

Em nosso compêndio de hinários basilares da doutrina do Daime, muitas vezes cantamos palavras e símbolos oriundos de outros contextos históricos, culturais e religiosos. Há uma forte presença da linguagem católica popular, marcada por termos como “pecado”, “perdão”, “humildade”, “castigo”, “obedecer”, “doutrinar”, “apanhar para aprender”, entre outros.

Mas antes de rejeitarmos essas expressões por parecerem antigas, duras ou associadas a uma visão de sofrimento, talvez seja necessário fazer um movimento mais profundo: compreender a origem e o sentido desses termos. Examinar. Refletir. Escutar o símbolo para além da leitura literal.

A palavra “pecado”, por exemplo, vem do latim peccatum, ligada à ideia de “errar o alvo”, “desviar-se do caminho”. Dentro de uma leitura esotérica, pecado não precisa significar culpa moral eterna, mas afastamento da consciência, da verdade interior, da harmonia com o divino. Quando um hino diz “Do mundo do pecado / Eu rogo a Deus do céu / Que ele seja perdoado” , talvez esteja falando menos de condenação e mais de recondução ao centro.

Da mesma forma, “perdão” vem do latim per-donare: “doar completamente”. Perdoar, originalmente, não é humilhar alguém, mas liberar, soltar, devolver ao fluxo. Em diversos hinos aparece o pedido de perdão como caminho de reconciliação espiritual: “Perdoai os vossos filhos / Neste mundo pecador” . Não necessariamente como submissão cega, mas como reconhecimento da própria limitação humana diante do mistério.

A palavra “humildade” vem de humus, terra fértil. Ser humilde não é se diminuir ou aceitar violência; é recordar-se ligado à terra, ao chão, ao real. É interessante perceber como isso aparece no hinário: “Sou humilde sou humilde / Sou humilde um filho seu” . A humildade aqui pode ser entendida como estado de abertura ao aprendizado e não como apagamento de si.

Até mesmo “castigo” merece uma observação mais cuidadosa. A palavra vem do latim castigare, ligada a “corrigir”, “purificar”, “tornar casto”. Em muitos contextos antigos, castigo não era vingança divina, mas processo de ajuste, disciplina e alinhamento. Quando o hino diz “Castigar severamente / Quem não quiser obedecer” , talvez possamos investigar se isso fala de punição ou das consequências naturais do desalinhamento com uma verdade espiritual ou mesmo a sua verdade interior.

Outro termo importante é “doutrina”, do latim doctrina, ligado a ensino, transmissão de saber. Nos hinos, “doutrinar” frequentemente aparece associado a ensinar, iluminar, orientar: “Doutrinar a quem quiser / Neste caminho a seguir” . Há aí uma dimensão pedagógica e iniciática, não apenas moralizante ou dominadora (o cristianismo dominando o mundo).

Também a palavra “obedecer” sempre traz falas interessantes sobre esse termo . Vem do latim ob-audire, “saber escutar”. Obediência, em sua raiz, não é servidão mecânica, mas capacidade de ouvir profundamente. Quando os hinos falam em aprender, ouvir, firmar, talvez estejam apontando para uma escuta espiritual mais refinada: “Os que forem obedientes / Tratar de aprender” .

Outro símbolo muito presente nos hinários é a

ideia do “mundo de ilusão”. A palavra “ilusão” vem do latim illusio, ligada a engano, aparência, jogo das formas. 

Em tradições espirituais e esotéricas, o mundo da ilusão não significa que a vida seja falsa ou sem valor, mas que frequentemente nos identificamos apenas com a superfície das coisas: ego, vaidade, orgulho, disputa, apego material, reconhecimento externo.

Quando os hinos dizem “Para eu seguir neste caminho / E deixar a ilusão” ou “De Deus tu te esqueceu / E só é bom a ilusão” , talvez estejam apontando para estados de inconsciência, distração espiritual e afastamento da essência. 

A ilusão pode ser entendida como tudo aquilo que nos separa da percepção mais profunda do ser.

Em muitos caminhos iniciáticos, sair da ilusão é despertar. 

É atravessar as máscaras do eu, os condicionamentos, os automatismos, e buscar uma percepção mais verdadeira da existência. 

Por isso os hinários insistem tanto em firmeza, consciência, memória divina, verdade e luz.

Por isso, talvez seja precipitado dizer simplesmente: “não canto hinários antigos porque eles carregam visões ultrapassadas de sofrimento”. 

Antes dessa conclusão, talvez seja importante compreender que muitos desses símbolos nasceram em outra linguagem de mundo, em outra época, e frequentemente operam em camadas poéticas, espirituais e iniciáticas.

Os hinos não falam apenas ao intelecto moderno. 

Eles falam também ao inconsciente, ao símbolo, à memória coletiva, ao arquétipo, ao processo espiritual de quem canta. 

Há expressões que, lidas literalmente, parecem duras; mas vistas esotericamente, podem revelar ensinamentos sobre disciplina interior, verdade, transformação, firmeza e reconciliação consigo mesmo.

Talvez o desafio não seja abandonar os hinários antigos, mas ampliar nossa capacidade de leitura deles. 

Compreender.

Refletir.

Examinar.

Como diz o hino: “É preciso compreender” .


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